Theresa Catharina de Góes Campos
     
De: LUÍZA CAVALCANTE CARDOSO
Date: qua., 14 de dez. de 2022
 
ATÉ   QUANDO   SUPORTAREMOS?

A deputada euro grega Eva Kaili foi destituída ontem de seu cargo no Parlamento Europeu, pouco tempo depois de ser descoberta envolvida em corrupção na Copa do Catar. Encontra-se presa. E a agilidade do castigo e da responsabilização tem um sentido: resgatar a credibilidade da instituição.

Credibilidade das instituições. Eis a questão! Não reconhecida nem resgatada no Brasil. Sendo um dos elementos fundamentais para a morte das democracias no mundo. Ao lado de outros fatores, entre os quais, as dificuldades de ordem econômica e a falta de eficiência do Estado. Com o incremento da injustiça social e da falta de qualidade de vida da população.

No entanto, ao que parece, nossa classe política não procura entender os novos tempos, permanecendo alienada e apostando na passividade da sociedade brasileira. Mas até para nós, a capacidade de sustentar o sofrimento e as frustrações com a conduta de nossas autoridades políticas, é uma capacidade inelástica. Em algum momento reagiremos. A depender da imprensa livre, dos órgãos de investigação e da seriedade da Justiça. Exemplo? Aqui em Brasília, a Polícia Civil através da Delegacia de Repressão à Corrupção, após um ano de investigação descobriu um caso de corrupção com emendas parlamentares no CRE de Planaltina. O valor das emendas alcançou R $6 milhões. Do NOSSO dinheiro. Principalmente dos menos privilegiados, que mal ganham para comer e pagam imposto em cada pão que compram.

Como costuma acontecer com as emendas, o desvio aconteceu através do conluio entre parlamentares, gestores, funcionários e empresas. É de se perguntar: por que, como antigamente, os parlamentares não se organizam para discutirem e pressionarem os Ministérios no sentido de conseguirem obras para seus redutos eleitorais? Por que desejam carimbar suas obras ordenando os recursos direta e pessoalmente? Dizem que por causa do retorno do dinheiro desviado para suas bolsas. Benditos os parlamentares que não usam propaganda eleitoral gratuita com o nosso dinheiro. E rejeitam as emendas e os Fundos Eleitoral e Partidário.

A credibilidade das instituições e das lideranças políticas é o que mantém a democracia. Mas aqui, falamos muito nela e fazemos o contrário. Agora mesmo o Presidente eleito Luiz Inácio pretende colocar na chefia do BNDES o sr. Aloisio Mercadante. Mesmo afrontando as leis que regem as estatais, que exigem em relação aos indicados para o cargo, uma quarentena de 36 meses, inclusive longe de atividades partidárias. Não é o caso do sr. Aloisio. Coincidentemente, acaba de ser aprovado um projeto na Câmara dos Deputados diminuindo o período para 30 dias.

E mais, o sr. Luiz Inácio afirma, dramaticamente, que não haverá mais privatização. Como assim? E as estatais ruins? Será porque, privatizadas, talvez as empresas não permitam mais conluios e distribuição de cargos entre políticos?  E não é verdade que a Petrobrás sempre foi muito bem nas mãos do governo. Vide os escandalosos resultados da Lava Jato.

Precisamos nos realinhar, estarmos atentos. Já dizia Fukuyama, citado em um belo artigo de Circe Cunha no Correio Braziliense de hoje (14/12), que no Brasil podemos perder a guerra contra a corrupção, perdendo seu foco e poder. Na medida em que “for arrastada para o campo de guerra ideológico.” Creio que não no campo da realidade crua onde, aparentemente, temos corruptos demais nos altos escalões.

E a corrupção assume várias formas, como o camaleão no antigo filme de Woody Allen. Ela se apresentará como desejam seus partidários. Não seria um ato desabonador colocar em embaixadas pessoas não preparadas profissionalmente? Embaixador é uma carreira altamente especializada, cujas ações envolvem um elevado grau de risco para o país. Onde ficariam a liderança e a capacidade profissional? Só falta, para completar o quadro, mandar a Dilma Roussef para embaixadora em Portugal e o advogado Kakay para a embaixada em Paris, por ter um apartamento por lá. Respeitosamente, qual o significado da participação presidencial e de um Ministro do STF em um almoço movido a samba, após a diplomação do Presidente eleito? Quando, normalmente, a comemoração se faz oficialmente? Um agradecimento ou um pedido? O Dr. Kakay, renomado advogado, foi o mesmo que defendeu a acusada de matar seus pais e a empregada em um crime bárbaro. Ré que saiu do tribunal com uma pena de mais de 30 anos e continua solta. Pelo beneplácito do STF e a falta de prisão em segunda instância. Enfim, em um terreno pantanoso,  de uma justiça generosa com os mais ricos. E ainda continuamos a falar em democracia.

Com todo o respeito e direito enquanto cidadão, precisamos lembrar e exigir que presidente nenhum tem o direito de rifar o Estado para colocar seus amigos. Nenhum Presidente tem o direito de usar o Estado para pagar suas dívidas de gratidão ou afastar os inconvenientes. Pois o Estado somos nós, todos nós, que contribuímos com nosso trabalho, impostos e ideais para construí-lo. A nossa imagem e semelhança.

Democracia supõe o compromisso com a honestidade e a eficiência. Não cabe mais enganos. E o atual governo pode sair bem menor do que começou. Na medida em que, na prática, a democracia for apenas uma cortina de fumaça embalada por discursos enfáticos, mas vazios. Os fatos indicam que não estamos em outro mundo em relação à gestão de Estado e às relações políticas. Continuamos com as mesmas práticas imorais de tratar o Estado, a coisa pública, como se privada fosse.

 LUÍZA CAVALCANTE CARDOSO 
<luizaccardoso@gmail.com(12/2022)

 
Jornalismo com ética e solidariedade.