Theresa Catharina de Góes Campos

 

 

 
Notas do Campo Seco: um conto de Akutagawa

De: 
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Date: qua., 12 de fev. de 2025 
Subject: [Kigo-BR] Notas do Campo Seco: um conto de Akutagawa
To: <
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Haicaístas:

 

Não se trata aqui de assunto diretamente ligado ao haicai, mas sobre como um dos maiores escritores japoneses do século passado, Akutagawa Ryûnosuke (1892-1927), imaginou a morte de Matsuo Bashô (1644-1694), o que pode ser de interesse dos haicaístas. Akutagawa, alcunhado de “o pai do conto japonês”,  talvez seja mais conhecido de nós pela adaptação que o cineasta Kurosawa Akira fez de dois de seus contos, “Num matagal” e “Rashômon”, sendo este último o título do filme. Akutagawa, que chegou a compor haicais sob o nome de haicaísta “Gaki”,  escreveu em 1918 uma ficcionalização da morte de Bashô, ainda impactado pela morte de seu mentor Natsume Sôseki (1867-1916).

 

Bashô foi famoso em vida, sendo celebrado onde quer que fosse. Por isso, as condições de sua vida madura e de sua morte são razoavelmente conhecidas, a partir de relatos deixados por discípulos e conhecidos. Durante uma viagem a Osaka, ele adoeceu e viu seu estado piorar dia após dia, sendo levado para um quarto alugado por discípulos nos fundos da loja do florista Nizaemon. Logrou escrever seu famoso último poema “Doente de viagem/ os meus sonhos perambulam/ pelo campo seco” quatro dias antes de expirar, no dia 12 do décimo mês lunar do ano 7 da Era Genroku (28/12/1694, pelo calendário gregoriano). Por tradição, sua morte é celebrada no dia 12 de outubro, conforme o calendário gregoriano.

 

“Era a tarde do dia 12 do décimo mês do sétimo ano da era Genroku. Pela manhã, o céu do alvorecer, que por momentos tingiu-se de tons de vermelho, convidava os olhos sonolentos dos comerciantes de Osaka a mirar os telhados ao longe, em busca de chuva como a do dia anterior. Felizmente, essa não veio enevoar as copas dos salgueiros e seus ramos oscilantes, e, por fim, o dia, apesar de nublado, firmou-se claro e tranquilo. Até a água do córrego, correndo como que sem rumo entre as filas de casas, estava opaca e indistinta, sem o seu brilho habitual, e, talvez por conta da imaginação, o verde das aparas de cebolinha que ali flutuavam parecia morno. Quanto ao vai e vem de pessoas ao longo de suas margens, de capuz na cabeça e calçados fechados, essas andavam distraidamente, como se esquecidas do mundo em que soprava o inclemente vento de inverno. A cor das cortinas, o tráfego das carroças, o som distante do shamisen em um espetáculo de marionetes — tudo era levemente luminoso, e até a poeira da cidade, acumulada sobre os pilares decorativos da ponte, guardava em sua imobilidade a calma de um tranquilo dia de inverno.”

 

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Abraços,


 

Edson Iura

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