Haicaístas:
Não se trata aqui de assunto diretamente
ligado ao haicai, mas sobre como um dos
maiores escritores japoneses do século
passado, Akutagawa Ryûnosuke
(1892-1927), imaginou a morte de Matsuo
Bashô (1644-1694), o que pode ser de
interesse dos haicaístas. Akutagawa,
alcunhado de “o pai do conto japonês”,
talvez seja mais conhecido de nós pela
adaptação que o cineasta Kurosawa Akira
fez de dois de seus contos, “Num
matagal” e “Rashômon”, sendo este último
o título do filme. Akutagawa, que chegou
a compor haicais sob o nome de haicaísta
“Gaki”, escreveu em 1918 uma
ficcionalização da morte de Bashô, ainda
impactado pela morte de seu mentor
Natsume Sôseki (1867-1916).
Bashô foi famoso em vida, sendo
celebrado onde quer que fosse. Por isso,
as condições de sua vida madura e de sua
morte são razoavelmente conhecidas, a
partir de relatos deixados por
discípulos e conhecidos. Durante uma
viagem a Osaka, ele adoeceu e viu seu
estado piorar dia após dia, sendo levado
para um quarto alugado por discípulos
nos fundos da loja do florista Nizaemon.
Logrou escrever seu famoso último poema
“Doente de viagem/ os meus sonhos
perambulam/ pelo campo seco” quatro dias
antes de expirar, no dia 12 do décimo
mês lunar do ano 7 da Era Genroku
(28/12/1694, pelo calendário
gregoriano). Por tradição, sua morte é
celebrada no dia 12 de outubro, conforme
o calendário gregoriano.
“Era a tarde do dia 12 do décimo mês do
sétimo ano da era Genroku. Pela manhã, o
céu do alvorecer, que por momentos
tingiu-se de tons de vermelho, convidava
os olhos sonolentos dos comerciantes de
Osaka a mirar os telhados ao longe, em
busca de chuva como a do dia anterior.
Felizmente, essa não veio enevoar as
copas dos salgueiros e seus ramos
oscilantes, e, por fim, o dia, apesar de
nublado, firmou-se claro e tranquilo.
Até a água do córrego, correndo como que
sem rumo entre as filas de casas, estava
opaca e indistinta, sem o seu brilho
habitual, e, talvez por conta da
imaginação, o verde das aparas de
cebolinha que ali flutuavam parecia
morno. Quanto ao vai e vem de pessoas ao
longo de suas margens, de capuz na
cabeça e calçados fechados, essas
andavam distraidamente, como se
esquecidas do mundo em que soprava o
inclemente vento de inverno. A cor das
cortinas, o tráfego das carroças, o som
distante do shamisen em um espetáculo de
marionetes — tudo era levemente
luminoso, e até a poeira da cidade,
acumulada sobre os pilares decorativos
da ponte, guardava em sua imobilidade a
calma de um tranquilo dia de inverno.”
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Abraços,
Edson Iura
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