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A fêmea do cupim – Manuel Bandeira
Tenho um amigo, cujo filho pretendeu entrar para
a diplomacia. Não que tivesse vocação para a
carreira, a vocação dele era para o turismo, mas
como quem é pobre a maneira mais fácil de
arranjar viagem é fazer-se diplomata,
candidatou-se ao curso do Instituto Rio Branco.
Foi reprovado em português no vestibular. Os
leitores hão de imaginar que ele redigia mal, ou
que havia na banca um funcionário do DASP que
lhe tivesse perguntado, por exemplo, o presente
do indicativo do verbo “precaver”. Foi pior do
que isto: um dos examinadores saiu-se com esta
questão absolutamente inesperada para um
candidato a diplomata: “Qual o nome da fêmea do
cupim?”. O rapaz embatucou e o mais engraçado é
que ignora até hoje. Inquiriu todo mundo,
ninguém sabia.
Eu também não sabia, mas tomei o negócio a
peito. Saí indagando dos mais doutos. O
dicionarista Aurélio decerto saberia. Pois não
sabia. O filólogo Nascentes levou a mal a minha
curiosidade e respondeu aborrecido que o nome da
fêmea do cupim só podia interessar... ao cupim!
Uma minha amiga professora, sabidíssima em
femininos e plurais esquisitos, foi mais severa
e me perguntou se eu estava ficando gagá e dando
para obsceno!
Vi que tinha de me arranjar sozinho. Fui para
casa, botei a livraria abaixo. Nada de fêmea do
cupim. De repente me lembrei da enciclopédia
Delta-Larousse, cujos quatro últimos volumes –
primorosos – acabo de receber. Corri ao índice
geral. Ó beleza! Lá estava: “Cupins, pág. 6436”.
Li muita coisa interessante sobre a fêmea do
cupim. Assim, que ela apresenta a mais
monstruosa hipertrofia abdominal que se possa
imaginar: atinge o volume de uma salsicha e põe
sem parar, noite e dia, um ovo por segundo, ou
seja, cerca de trinta milhões por ano, cento e
cinquenta no curso de sua vida. E uma porção de
outras minúcias. Mas sobre o nome da bicha, neca!
Isto, pensei comigo, é problema que só poderá
ser resolvido por algum decifrador de palavras
cruzadas, gente que sabe que o ferrinho onde se
reúnem as varetas do guarda-chuva se chama “noete”,
que o pato “grasna’, o tordo “trucila”, a garça
“gazeia”, e outras coisas assim. Telefonei para
minha amiga Jeni, cruzadista exímia.
– Jeni, me salve! Como se chama a fêmea do
cupim?!
E ela, do outro lado do fio:
– Arará.
Fui verificar nos dicionários. Dos que eu tenho
em casa só um trazia a preciosa informação:
“Arará”, s. m. (bras.) Ave aquática do Rio
Grande do Sul; fêmea alada do cupim.”
Mestre Aurélio, a fêmea do cupim se chama
“arará”, está no meu, no teu, no nosso
dicionário – O Pequeno Dicionário Brasileiro da
Língua Portuguesa!
(Manuel Bandeira, 25/10/61) |
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