Theresa Catharina de Góes Campos

 

 

 
Marejando - LUÍZA CAVALCANTE CARDOSO



De: LUÍZA CAVALCANTE CARDOSO <luizaccardoso@gmail.com>
Date: seg., 19 de jan. de 2026
Subject: marejando


MAREJANDO



Para falar com franqueza, não sei bem o significado do termo acima que escolhi como título e, portanto, de um modo totalmente irresponsável. Tenho para mim que é como se sentir no balanço das ondas, com o fundo do mar abaixo das costelas, insegura, com certo medo, mas de alguma forma se deliciando com o fato de estar tão livremente aproveitando o conforto de boiar em águas mornas. Ah! Sim. Boiar em águas mornas! Pra lá de gostoso. No entanto, é bom lembrar, muitas vezes continua o medo de aparecer algum peixe grande e ameaçador. Todavia, o termo marejar, ao contrário do que imaginamos, significa verter, gotejar, brotar, sair, encher-se de lágrimas.

Como no amor, o fato é que não sabemos exatamente o que nos espera além daqueles momentos inspiradores e deliciosos. Mas resolvemos usufruí-los, embora nosso espírito permaneça meio desconfiado quanto aos problemas e desamores que por acaso apareçam. Ou não desconfiamos de nada, com aquela fé meio inconsequente, sem maior entendimento da situação que vivemos, sem a compreensão do outro e de quanto temos de lidar com as nossas suscetibilidades e dissonâncias. Mas os sentimentos vão brotando, vertendo e talvez, ao final, nos restem as lágrimas. Como diz Neruda em seu poema LXVI do livro “Cem sonetos de amor”: “E não ver-te e amar-te como um cego”.

O amor aparece límpido aos olhos de quem é impelido a vivê-lo e, por consequência, o desejo que toma tudo sob seu controle, as mãos que fazem desaparecer a solidão. Diz Vinicius: “Quisera tanto/ Por um momento tê-la em meus braços/ A coma ao vento/ descendo nua/ pelos espaços.” Ele esclarece ainda que seguirá todas as mulheres em seu caminho porque este é seu destino. E que ao fim saberá que foi amante, e entre a mulher e ele alguma coisa existe: “Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa de socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida”. (Nova Antologia, Vinicius de Moraes, pág. 42 e 43 )

A grande questão talvez seja justamente este secreto acordo de que fala Vinicius. Pois significa algo maior do que o amor, as sensações, o desejo, as emoções à flor da pele. Trata-se de uma promessa de socorro, compreensão e fidelidade para a vida, diz ele. Que era um especialista no assunto, pela forma como o vivenciou a cada momento. Talvez nos esqueçamos desta realidade algumas vezes. De que amar é sacrifício também, é esforço de entender os motivos daqueles que amamos, é estar perto no sentido de estarmos à disposição. Cúmplices.

E Vinicius tem um poema, “Soneto do amor total”, que nos estimula no desejo de amar. Ele começa assim: “Amo-te, meu amor... não cante/ O humano coração com mais verdade. / Amo-te como amigo e como amante/ Numa sempre diversa realidade/ Amo-te, afim, de um calmo amor presente, E te amo além, presente na saudade, / Amo-te, enfim, com grande liberdade/ Dentro da eternidade e a cada instante. / Amo-te como um bicho, simplesmente, / De um amor sem mistério e sem virtude/ Com um desejo maciço e permanente. / E de te amar assim muito e amiúde, / É que um dia em teu corpo de repente/ Hei de morrer de amar mais do que pude.” (01/2026/luiza)
 

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