Theresa Catharina de Góes Campos

 
AS RAPARIGAS DA RUA DE BAIXO II - Lembranças da Mocidade
 Reynaldo  Domingos Ferreira

Textos para as orelhas do livro

AS RAPARIGAS DA RUA DE BAIXO II – Lembranças da Mocidade

Diverti-me muito com a leitura de AS RAPARIGAS DE RUA DE BAIXO – Memórias de Infância, de Reynaldo Domingos Ferreira. É impressionante como a vida nas pequenas cidades mudou nos últimos anos. A aceitação que vem tendo o livro se explica, a meu ver, por duas razões: é muito bem escrito e sincero. Esse negócio de sinceridade é para mim muito importante. Quando a gente começa a ler alguma coisa e percebe que o autor não está sendo autêntico, nasce imediatamente uma certa rejeição pelo que está lendo por mais bem escrito que seja. Terminada a leitura de AS RAPARIGAS DA RUA DE BAIXO – Memórias de Infância, por absoluta coincidência, comecei a ler VIVER PARA CONTAR, de Gabriel Garcia Márquez. É impressionante como são parecidos!... Na forma de olhar o passado e no ritmo também. São duas obras que enriquecem a gente. NEY CURVO, jornalista, ex-Assessor de Comunicação Social  da Presidência do Banco do Brasil, em Brasília.

AS RAPARIGAS DA RUA DE BAIXO – Memórias de Infância, de Reynaldo Domingos Ferreira, que acabo de ler, é muito bem escrito, cheio de dados fascinantes, de sacadas incríveis. É livro dos melhores que já li no gênero. Apesar de ter sido criado em outra região do país, muitas das situações descritas no livro também me foram familiares. Os sapateiros, os alfaiates, os ciganos, as tempestades, os adultérios e honra, os desertores, a história do veneno, as três irmãs que foram obrigadas a viver com o mesmo homem. A questão dos leprosos em particular me pareceu impressionante. A história dos gatos remete ao Grande Massacre dos Gatos, de Danton. (...) Mas, o final do livro – as duas últimas páginas – é cinematográfico e promove inesperada tristeza no leitor. EZIO FLAVIO BAZZO, Doutor em Psicologia-Clínica e escritor, autor de Vagabundo na China, Dymphne a santa protetora dos loucos, Ecce Bestia, entre outros livros.

Os entusiastas das viagens de ônibus, principalmente aquelas dos anos 40 e 50, irão se deliciar com o ótimo texto de AS RAPARIGAS DA RUA DE BAIXO – Memórias de Infância , novo livro do escritor mineiro, Reynaldo Domingos Ferreira. Ele rememora viagens em antigas jardineiras e sua infância em Uberaba. Revista ABRATI, n.39, da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros, editada pelo jornalista CIRO MARCOS ROSA.

Texto de apresentação do livro:

SABOR DE VIDA II

De Campo Florido, cenário do primeiro volume de As Raparigas da Rua de Baixo, transferimo-nos com o autor, nesta continuação de suas memórias, de volta a Uberaba, sua terra natal, onde assistiremos, como num filme, ao desenrolar de sua adolescência.  Já não se trata, pois, de "Memórias de Infância", mas de "Lembranças da Mocidade". A transição de uma etapa à outra se faz naturalmente, sem quebra do fio narrativo, pois, como advertíamos na apresentação do tomo inicial, Reynaldo Domingos Ferreira, excelente memorialista que é, tem também o domínio da técnica do romance.

Notável, desde logo, a riqueza da exposição de situações normalmente vividas, em cidade do interior, particularmente do interior mineiro, na época em que se passam esses fatos e essas vivências – há pouco mais de meio século. Como o mundo mudou, de lá para cá, e como o homem continua basicamente o mesmo, se bem que investido de novas roupagens, novas tecnologias, novas aberturas no campo social...

Desde o começo, com a descrição minuciosa da casa das avós Amélia e Sinhá (avó e bisavó), do caminho da rua dessa casa à praça "do Grupo" e de tantos outros detalhes, passa-nos o autor a segurança de quem traz a paisagem e as figuras dessa quadra de sua juventude perfeitamente vivas na memória.  Essa geografia, essas coisas, essas pessoas são de uma riqueza que impede seja tomado o leitor de qualquer sensação parecida com o tédio. Vamos, assim, acompanhando a narração com a entrega de quem saboreia deliciosas invenções, multiplicado o interesse pela ciência de que é tudo verdade, de que tudo aconteceu, a mostrar como a vida pode alimentar a ficção, fornecer-lhe estrutura e tutano.

É marcante, nestas memórias, a paixão do menino e do moço Reynaldo pela música, desde os primeiros bancos escolares. Pela música clássica (erudita, diz o escritor, mas estou entre os que simpatizam pouco com essa adjetivação...), particularmente pela de Tchaikovsky e, dentre suas obras, pelo Concerto n. 1 para Piano e Orquestra. (Mais tarde, é claro, o jovem Reynaldo vai descobrir outros compositores de gênio, e ampliar o leque de sua formação musical.)

Também visível é o encantamento do menino com suas descobertas literárias, do sitio dO Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, à poderosa voz de Gonçalves Dias, nos "Poemas Americanos", e daí aos grandes nomes universais da prosa de ficção. Simultaneamente, descobria sua própria aptidão para as letras, que viria a se concretizar em obras de diversos gêneros.

Já então, conforme se percebe no segundo capítulo, nascia também o interesse pelo cinema, não somente como espetáculo e diversão, mas como objeto do âmbito da cultura e da arte, interesse que viria a fazer do adulto um competente e sensível comentarista de suas produções.

Verdadeira devoção, entretanto, dedicará ao teatro, devendo-lhe Uberaba e seu entorno, bem como aos colegas que reuniu e orientou, a sua iniciação na multimilenária arte cênica.  Reynaldo D. Ferreira, nesse terreno, fez de tudo: formou e dirigiu atores, traduziu, montou, escreveu peças de vário matiz, chegando a cuidar da encenação, de pormenores da decoração, da publicidade e – até isso! – da construção de salas teatrais. Em dado momento, foi-lhe necessário deixar as lides do palco para cuidar da própria vida... Não sei da lacuna que terá essa deserção significado para sua cidade.  Afortunadamente, para nós, esse afastamento não foi definitivo. Anos mais tarde, escreveria, publicaria e, conforme as possibilidades, encenaria peças de valor cênico e literário. Já em Brasília, viria a lançar suas  belas produções dramáticas, de Dona Bárbara (1983) até A Mulher de Lote (São Paulo, 2006).

Mas – imagino que alguém pergunte – e as raparigas da Rua de Baixo? Ficam no título, prolongamento apenas sugerido das memórias de infância? Nada disso. Elas comparecem também aqui, só que de modo discreto. É este, sim, como o anterior, um livro com sabor de vida, e elas são parte do tempero.  Mas não quis Reynaldo sobrecarregar suas confissões de excessivo condimento; não se pretende, o seu, um depoimento de sabor picante, ao gosto boêmio, mesmo porque sua vida se pautou, e se pauta, antes pela tônica das coisas do espírito. Diria, até, que estas são, de certo modo, memórias culturais, se tal não parecesse excluir outros aspectos, talvez menos visíveis, mas não menos importantes.

Conclui-se esta segunda parte com o autor à procura de novos horizontes vitais. Rio de Janeiro? São Paulo? Brasília? É sintomática de seu estado de espírito, nessa encruzilhada, a citação que faz de Jack Kerouac:

Em algum lugar, ao longo da estrada, eu sabia que haveria garotas, visões e muito mais; na estrada, em algum lugar, a pérola me seria ofertada...

Descartada a idéia, por algum tempo acalentada, de seguir a carreira diplomática, afastou-se o Rio como destino. Uma visita à nova Capital somente lhe deparou caminhos fechados, sem falar na aversão que lhe causava o clima de faroeste na nascente cidade. Brasília teria de esperar... Antes de se ver pronto para ela, a Paulicéia o acolheria, lá completaria sua formação. E para lá se foi, com um canudo na mão (o diploma de Direito) e muitos sonhos na cabeça.

No ônibus, ao passo que começa a assumir os próprios rumos, atormenta-o a angústia dos novos caminhos. Mas uma sorte de visão interior lhe mostra que, de algum modo, ele levava  a pérola no bolso... Resisto à tentação de transcrever esse finale, belo e poético. O leitor tem todo o direito de o reservar para o momento certo, como culminação do texto.

Com a ida para São Paulo fecha-se uma etapa de sua vida. E abre-se outra.

Mas isso é matéria para o terceiro tomo...

ANDERSON BRAGA HORTA
Poeta, contista, ensaísta
e crítico literário,
Prêmio Jabuti

Texto para a contracapa:

(...) Mas – imagino que alguém pergunte – e as raparigas da Rua de Baixo? Ficam no título, prolongamento apenas sugerido das memórias de infância? Nada disso. Elas comparecem também aqui, só de modo mais discreto. É este, sim, como o anterior, um livro com sabor de vida , e elas são parte do tempero. Mas não quis Reynaldo sobrecarregar suas confissões de excessivo condimento; não se pretende, o seu, um depoimento de sabor picante, ao gosto boêmio, mesmo porque sua vida se pautou, e se pauta, antes pela tônica das coisas do espírito.  Diria, até, que estas são, de certo modo, memórias culturais, se tal não parecesse excluir outros de seus aspectos, talvez menos visíveis, mas não menos importantes.

Conclui-se esta segunda parte com o autor à procura de novos horizontes vitais. Rio de Janeiro? São Paulo? Brasília? É sintomática de seu estado de espírito, nessa encruzilhada, a citação que faz de Jack Kerouack:

Em algum lugar, ao longo da estrada, eu sabia que haveria garotas, visões e muito mais; na estrada, em algum lugar, a pérola me seria ofertada... (...)

ANDERSON BRAGA HORTA
Poeta, contista, ensaísta
e crítico literário
Prêmio Jabuti

 

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