Theresa Catharina de Góes Campos

     
LIVROS SALVAM VIDAS

Reportando-me ao artigo do jornalista,  escritor,  game designer e músico brasileiro, Fred Di Giacomo, da Uol, que repassei aos amigos, há alguns dias, recebendo, de volta, em seguida, várias mensagens de admiração ao seu belo texto, penso que, como aconteceu com ele, foram os livros que salvaram a minha vida. E não só a minha, na verdade, mas também, a outras vidas, que  por mim, foram salvas, com a força,o espírito de luta,  que me deram os livros.  Pois, de fato, a foto, a este texto anexada, a qual  despertou a curiosidade de um amigo, recentemente, ao lhe ser transmitida, por WhatsApp, talvez seja bastante ilustrativa do que  estou a dizer.

Tomada pelo amigo, jornalista, Heitor Tepedino, registra a foto um dos momentos mais emocionantes, na vida deste antigo garoto,  que jogava bolinhas de gude, pelas ruas de Campo Florido, MG, visitando então, em 1984, a casa, onde nasceu, viveu, e morreu,  William Shakespeare (1564 - 1616), dramaturgo, ator, poeta, menestrel, tido como o maior escritor inglês, em sua cidade natal,  Stratford-Upon-Avon, onde também existe o Royal Shakespeare Theater, às margens de alguns regatos. Um cenário, sem dúvida,  maravilhoso!...Para mim, inesquecível.

O que os negacionistas de livros, de leis, de vacinas, de ciência, de educação, de cultura, como há muitos, neste país -  não só o  clamoroso governo atual -, precisam saber, entretanto, é que, na ocasião, em que visitei Stratford, conduzido por Tepedino, e sua  esposa, Carla, que, então, residiam, em Londres, Shakespeare rendia, para a Inglaterra, três vezes mais do que auferia o Brasil,  com o primeiro item de sua insignificante pauta de exportações, que através dos anos, continua, quase como era antes. Cultura  também produz dinheiro, Senhores!.... E prestígio.

Vejam agora o extraordinário feito da Itália, enviando uma réplica do " David", de Michelângelo ( 1470 - 1564 ),  uma das obras-primas  da Renascença italiana,  feita por impressoras 3D, em resina acrílica, que pesa 10 vezes menos, do que a escultura original, em  mármore de Carrara, para ser mostrada, em maio próximo, na Exposição Universal de Dubai, nos Emirados Árabes, coisa de apurada  tecnologia, que jamais se pode pensar desenvolver-se, neste país, comandado sempre por mentalidades estreitas, corruptas, atrasadas.

O casal Tepedino me havia convidado a passar por Londres, na minha viagem de regresso ao Brasil, que coincidia com um fim de semana,  depois de assessorar o presidente do Banco Central, Carlos Geraldo Langoni, em assuntos de imprensa, como participante da reunião  anual do Banco Mundial, que se realizara, em Berlim Ocidental. Na ocasião, tive também a oportunidade de, pela Friedrichstrasse, atravessar  o Muro de  Berlim ( 1961 - 1991 ),  a fim de conhecer um pouco das agruras da vida dos alemães, que lá viviam, do outro lado, sob o regime  comunista, em quase tudo semelhante ao que acontecia aos cubanos - a ditadura dos Irmãos Castro agora, após 60 anos ( 1959 - 2021 ),  chegou ao fim - e, posteriormente, aos venezuelanos, que também conheci, durante o governo de Hugo Chávez ( 1954 - 2013 ).

Foi Machado de Assis, na verdade, quem me introduziu no enriquecedor, como admito, mundo da literatura, fazendo-me, da mesma forma,  depois de conhecer todas as suas obras, descobrir as de outros escritores, brasileiros e estrangeiros, como Camões, Cervantes, Joaquim  Manoel de Macedo, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Gonçalves Dias, Jane Austen, Graham Greene, Gustave Flaubert, Marcel Proust,  Charles Dickens, Leon Tolstoi, Fjodor Dostojewski, Thomas Mann, Hermann Hesse, Henry James, John Steinbeck, Jack London, Ernest  Hemingway,  Virgínia Woolf, Franz Kafka, Jorge Isaac, Gabriel Garcia Marquez, Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges, Mário Vargas Llosa,  Érico Veríssimo, Emily Bronte, Emily Dickinson, Carlos Drummond de Andrade, Paul Verlaine, Anderson Braga Horta, Álvares de Azevedo,  Eça de Queiroz, Mário de Andrade, Fernando Pessoa, Guido Bilharinho, J.H. Henriques, Mário Palmerio, Olga Maria Frange de Oliveira,  Theresa Catharina de Góes Campos, Rainer Maria Rilke, Jack Kerouac, Ezra Pound, e outros, muitos outros. Uma infinidade.

Mas, como aconteceu com Fred Di Giacomo, natural de Penápolis, SP,  eu também não tinha dinheiro para comprar livros!... Não tinha.  Na linguagem presidencial de hoje, de muito baixo nível, nem um puto de centavo, para ser mais exato. Num certo momento, porém,  convencido de que, como disse Voltaire ( 1694 - 1778 ), " a leitura enriquece a alma" - o que os jovens, de hoje, não sabem, perdidos,  como estão, no desespero das redes sociais -, ganhei o lucrativo hábito de frequentar a Biblioteca Municipal " Bernardo Guimarães ",  de Uberaba, onde encontrei tudo, ou quase tudo, o que queria: " livros, livros, à mão cheia ", como diria Castro Alves ( 1847 - 1871 ).  Uma tarde - lembro-me bem! - cheguei lá, em pleno verão, molhado de chuva, quando ouvi da diretora, Iná de Souza, uma novidade:

- Como você é frequentador assíduo da Biblioteca, ao que observo, com atenção, quero lhe dizer que adquirimos a " Comédia Humana", de Honoré de Balzac ( 1597-1654 ),  da Editora Globo, editada sob a coordenação de Paulo Rónai ( 1907 - 1992 ). A encomenda envolve um total de sessenta livros. Os dez primeiros exemplares chegaram. Já foram codificados, estando, portanto, à sua disposição para lê-los. 
Você será o primeiro!...
 
Ante essa animadora notícia, mais do que depressa, com entusiasmo, selecionei, para ler, " Eugênia Grandet ", pois, de Balzac, eu já conhecia " O Pai Goriot ", que também constava da relação dos dez primeiros exemplares,  chegados à Biblioteca. Em seguida, li " Memórias de Duas Jovens Esposas", " O lírio do Vale ", " As Ilusões Perdidas " e vários outros, mas sem poder sequer supor, naquela ocasião, que, um dia, no verão de 2007, eu iria conhecer a região descrita, em todos aqueles livros, a Touraine, com a antiga capital da França, Tour, de amplas e alegres avenidas, restaurantes e bares, ao ar livre, onde nasceu e viveu Balzac, no Vale do Loire, que percorri inteiro, de Nantes até Saint-Nazaire, fazendo, inclusive, ligeira visita ao Castelo de Sachê, onde ele escreveu " O Pai Goriot " e " O Lírio do Vale ".
 
Foi Shakespeare, entretanto, quem me abriu as maravilhosas portas do teatro!... Pois, de fato, depois que vi a versão cinematográfica do 
" Hamlet " ( 1948 ), produzida, dirigida e interpretada por Sir Laurence Olivier ( 1907 - 1989 ), me convenci de que deveria dedicar-me à arte cênica. Criar, nela, o meu espaço. E, inspirado também certamente pelo embaixador Paschoal Carlos Magno ( 1906 - 1980 ), que assinava 
a coluna de teatro, do " Correio da Manhã ", eu também criei, em Uberaba, minha cidade natal, o Teatro do Estudante. Mas não tinha condições, naturalmente, como logo compreendi, de encenar a peça dos meus sonhos. O " Hamlet ", como conclui, ficaria para mais tarde. Optei, então,  por uma comédia, de um autor do Triângulo Mineiro, Franklin Botelho, de Patrocínio, que, orgulhoso, foi a Uberaba para assistir à montagem de seu texto, no Teatro São Luís, o mais tradicional da cidade.
 
Se não encontrei oportunidade de montar nem o " Hamlet " - só um ator, Sérgio Cardoso ( 1925 - 1974 ), no Brasil, como acredito,  teve o talento e a postura para sustentar o peso da interpretação do personagem -,  nem nenhuma das peças de Shakespeare, durante o tempo, em que fiz teatro, em Uberaba, primeiro, com o Teatro do Estudante, e, depois, com o Núcleo Artístico e Cultural da Juventude, por  leitura, e pelas inúmeras versões cinematográficas, das obras dele, que, ao longo do tempo, foram aparecendo, eu me entreguei intensamente ao seu mundo fantasioso, mágico. E - o que considero importante -, os inúmeros personagens, por ele criados, me ajudaram a conhecer e a compreender, um pouco, as características da natureza humana. 
 
Em vista disso, ao chegar à casa, em que o grande dramaturgo, nasceu e viveu, de inúmeros cômodos, alguns mais amplos, outros mais acanhados, tive ligeira impressão de que já conhecia o cenário, habitado então por manequins, distribuídos pelas várias dependências, caracterizados, como o Hamlet, a Ophelia, o Otelo, a Desdêmona, o Iago, o Romeu, a Julieta, o Cássio, o Hypolito, a Rosalinda, o Jacque, a Maria, a Catherina, o Henrique V, o Julius Caesar, o Brutus, o Marco Antônio, o Macbeth, com a sua terrível Lady, o Bessani, o Antônio, o genial agiota Shylock, e muitos, muitos outros, todos eles meus amigos íntimos, cuja "amizade " empenho-me em preservar, através dos tempos. Terminada aquela enriquecedora visita, que me proporcionou o casal amigo, regressamos a Londres, passando, antes pelo castelo, no qual residiu Sir Winston Churchill ( 1874 - 1965 ),  o grande primeiro-ministro da Inglaterra, durante a II Guerra Mundial. Grato, pela leitura, Reynaldo Domingos Ferreira, jornalista, escritor
Brasília - DF, 21 de abril de 2021
 

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